Vamos falar de escolhas políticas¹
por Viviane Neme Campos
“O homem gosta de acreditar-se senhor da sua alma. Mas enquanto for incapaz de controlar os seus humores e emoções, ou de tornar-se consciente das inúmeras maneiras secretas pelas quais os fatores inconscientes se insinuam nos seus projetos e decisões, certamente não é seu próprio dono”.
(JUNG, 2008, p. 83)
Li, há pouco tempo, um livro sobre o golpe de 1964 (FICO, 2014) e a forma como o discurso anticomunismo e anticorrupção tinham adesão, desde então, chama a minha atenção.
O anticomunismo, no contexto da guerra fria, até podia fazer algum sentido.
Hoje, é uma lenda urbana. A verdade, porém, é que, em todas as épocas, acreditou-se em bruxas e em outras crenças populares. As pessoas creem. Quanto a isso, não tenho muito a dizer.
O discurso anticorrupção, no entanto, me remete à citação de Jung, em epígrafe. A corrupção é essencialmente humana. Manifesta-se no seio das famílias, projetando-se na sociedade, nas instituições e na política.
A não percepção pelas pessoas, e não me excluo, “das inúmeras maneiras secretas pelas quais os fatores inconscientes se insinuam nos seus projetos e decisões” (JUNG, 2008, p. 83) cria condições propícias para a dissociação delas, e em nível assustador.
É assim que elas veem a corrupção no outro e são cegas para as próprias condutas. Corrompem um guarda de trânsito, desrespeitam regras básicas de convivência e se acreditam moralmente superiores. Trata-se de uma sentença um tanto quanto genérica, de fato, mas é real.
Escolhem um candidato com base em fatores inconscientes e não importa o que eles sejam, eles caberão na moldura criada.
Sobre Lula, é assim que a grande maioria das pessoas que é contra ele não tem a menor percepção do que as incomoda em um torneiro mecânico, que foi presidente da República por três vezes e é respeitado mundo afora, até mais do que no Brasil.
E é assim que elas votam em Flávio Bolsonaro em nome de Deus, da pátria, da família e do combate à corrupção.
O problema é que toda escolha, consciente ou não, gera resultados concretos e, muitas vezes, não apenas para a própria pessoa.
Na política, o resultado é coletivo!
De tudo o que escrevo, acreditem apenas nessas palavras: o mundo vai muito além do quintal da sua casa. Sejam conscientes dos privilégios que eventualmente possuem e votem pensando no coletivo.
É assim que se constrói uma nação.
_________________________________________________Sobre a autora
Viviane Neme Campos é bacharel em direito, exerce o cargo de analista judiciário na Justiça Federal da 3ª Região e é membro da equipe editorial da Revista Inditos.
________________________________________________________Notas
1) Texto publicado originalmente nas redes sociais da autora – Viviane Neme Campos (Facebook e Instagram), em 08.10.2026, e republicado com alterações.
_________________________________________Referência Bibliográfica
JUNG, Carl G. et al. O homem e seus símbolos. Tradução de Maria Lúcia Pinho. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008 p. 83.
FICO, Carlos. O golpe de 1964: momentos decisivos. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2014. (Série FGV de Bolso)

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