Comecei a lecionar em 2013 e ingressei como efetivo na rede estadual de São Paulo em 2014. Em 2017, cheguei à Escola Estadual João Dias da Silveira, localizada no Tatuapé, ao lado da estação de metrô Carrão. Essa foi a escola em que trabalhei por mais tempo e teve grande importância para minha consolidação como Professor. Na época, cursava Pedagogia pela Universidade Estadual Paulista por meio do programa UniCEU e, ao final do mesmo ano, ingressei no Mestrado Profissional de Ensino de História (ProfHistória).

Em 2018, a escola sofreu um esvaziamento, abrindo apenas cinco turmas de primeiros anos (quatro a menos que no ano anterior). O motivo oficial era que a escola estadual oferecia apenas o Ensino Médio e recebia, majoritariamente, alunos da rede municipal. Naquele ano, porém, a rede não teve turmas de nono ano em razão da reforma educacional que transformou o antigo pré-escolar em primeiro ano. Com essa mudança, a rede optou por antecipar o primeiro ano e manter a segunda série, deixando uma lacuna correspondente à antiga primeira série.

Na escola, esperava-se que a situação se normalizasse no ano seguinte. Entretanto, a previsão da Diretoria de Ensino Leste 5 era de que fossem abertas apenas três turmas de primeiro ano. Preocupados com essa possibilidade, eu e outros docentes buscamos alternativas para reverter a situação. Fomos a escolas de bairros periféricos da Zona Leste, com alunos oriundos dessas unidades, e conversamos com estudantes convidando-os a estudar no João Dias. A iniciativa deu certo e, ao final, conseguimos abrir sete turmas de primeiro ano.

Em 2019, vivenciamos um ano, pedagogicamente, muito positivo na Escola Estadual João Dias da Silveira. Destaco, em especial, as turmas do período da tarde, formadas majoritariamente pelos primeiros anos do Ensino Médio. Eram salas cheias, compostas por muitos alunos vindos de bairros distantes que, após nossa campanha, chegavam à escola em busca de uma “boa escola”.

No meio do ano, a Diretoria de Ensino Leste 5, que anteriormente, havia tentado esvaziar a escola, propôs transformar a escola em PEI (Programa de Ensino Integral). Ao tomarem conhecimento, os alunos, cientes de que boa parte dos colegas e professores sairiam com a adesão ao programa, se mobilizaram contra o programa, pressionando a direção que estava visivelmente acuada, dividida entre o engajamento da comunidade escolar e a orientação da Diretoria de Ensino com “receitas prontas” de sucesso. 

A participação dos alunos ocorreu por diversos aspectos, e cabe citar o intenso envolvimento em projetos interdisciplinares dos discentes e docentes da escola. Entre eles o projeto de Bioética e a feira de ciências, que contou com a participação de várias disciplinas (algo nunca visto por mim).

Orientei trabalhos de Arqueologia com as turmas de primeiros anos, sobre a corrida espacial com terceiros anos, e sobre Descartes com os segundos anos, em parceria com a disciplina de Filosofia. Como ocorre em todo projeto de grande abrangência, houve grupos mais dedicados e engajados que outros. Mas se observarmos as apresentações produzidas, especialmente considerando que se tratava de um período anterior ao recente chatGPT, podemos afirmar que o projeto foi uma vitória.

No entanto, a escola enfrentou um “problema” comum às escolas: a aposentadoria (cada vez mais rara) do professor de Matemática. Ele lecionava em cinco terceiros anos do Ensino Médio no período da manhã. A aposentadoria ocorreu no meio do primeiro semestre e, em razão da desorganização da rede estadual, os alunos ficaram muito tempo sem professor de matemática durante o ano.

No final do ano, o SARESP (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) avaliava apenas os terceiros anos nas disciplinas de Português e Matemática. A avaliação externa, por si só, já apresenta limitações, uma vez que produz um recorte específico da realidade escolar. No caso da Escola Estadual João Dias, naquele ano, houve problemas pontuais que justificam o desempenho insatisfatório apresentado na avaliação.

O planejamento para o ano letivo deveria constituir uma conquista docente. Ter dias para pensar estratégias pedagógicas e refletir sobre a realidade escolar em um período remunerado é muito positivo. Nos últimos anos, porém, esse momento tem se transformado, cada vez mais, em uma mera análise dos resultados das avaliações externas, buscando explicações para derrotas ou celebrando bons resultados, sem que sejam efetivamente considerados os problemas vivenciados na escola. 

No planejamento de 2020, seguindo essa tendência, discutiu-se exclusivamente uma pauta previamente elaborada, enviada pela Diretoria de Ensino, apontando os “maus resultados” alcançados pela unidade escolar no ano de 2019. Durante três dias, professores de todas as disciplinas foram orientados a planejar estratégias de projetos para melhorar os resultados de Matemática. 

Tudo parecia de ponta-cabeça… Não se enxergava a escola, suas qualidades e, tampouco, seus problemas reais. Todos sabiam que o principal fator era a óbvia ausência de professor, pois não se poderia produzir uma prova da falha da rede estadual, afinal é o estado que deveria fazer concursos e contratar novos docentes. É evidente que nenhuma escola é perfeita, mas é, no mínimo, equivocado culpabilizar a unidade escolar por problemas da rede.

Hoje estou em outra escola, a Escola José Chediak, localizada no Parque São Lucas e pertencente à mesma Diretoria. Após a pandemia, o João Dias foi cada vez mais esvaziado, tendo poucas aulas e docentes.

Era apenas o início de um período sombrio na educação paulista. Após a pandemia, houve um aprofundamento dos usos de plataformas, cujos resultados são fabricados. Na atual gestão estadual, que tomou posse em 2023, os professores passaram a ser classificados com “faróis” (verde, amarelo e vermelho), nos quais um dos critérios é o resultado das avaliações externas. Esse sistema pode, inclusive, levar à retirada do professor da unidade escolar.

A crise é, ao mesmo tempo, estética —  pela cafonice dos faróis —  e ética, além de anticonstitucional. De cima para baixo, cria-se um discurso meritocrático de fachada, culpabilizando a própria comunidade escolar pela sua sorte.

A vitória, representada pelos bons resultados ou pelo “farol verde”, é comemorada como conquista individual. O empate, simbolizado pelo farol amarelo, é interpretado sob o discurso de que “podemos melhorar”, alimentando a ilusão de que a solução está na melhoria de resultados. Já a derrota, representada pelo farol vermelho, explicita a invisibilidade dos sujeitos que constituem a escola e desencadeia uma busca desesperada, novamente de cima para baixo, por alguém a quem atribuir a responsabilidade.

O governo aponta para Diretoria de Ensino, que aponta para gestão, que aponta para os professores, que apontam para os alunos, e estes, por sua vez, no mais das vezes não compreendem todo o alarde produzido em torno dos resultados, pois, como diz Criolo: “se eu não existo, por que cobras de mim?”.

Criolo na Celebração do Bicentenário da Independência do Brasil e reabertura do Museu do Ipiranga, em São Paulo, no feriado de 7 de Setembro de 2022. Fotografia de Adriano Escanhuela.

__________________________________________________Sobre o autor

Evandro José Braga, mestre em Ensino de História pela UNIFESP (2021) onde também se formou em Bacharelado e Licenciatura no curso de História (2012) e Pedagogia pela Unesp (2019). Atua como professor efetivo da Rede Estadual de São Paulo e no cursinho popular Vito Giannotti, também trabalha como Psicanalista clínico em São Paulo.

________________________________________Referências bibliográficas

CÁSSIO, Fernando (Org.). Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar. São Paulo: Boitempo Editorial, 2019  

GIROUX, Henry A. Os professores como intelectuais: rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

PEREIRA, Alexandre Barbosa. “A maior zoeira” na escola: experiências juvenis na periferia de São Paulo. São Paulo: Editora Unifesp, 2016.



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