
A História também está à mesa: produzindo materiais didáticos para a Educação Básica
por Lidiane Monteiro Ribeiro e Caroline Gil
Quando observamos um alimento servido na escola, uma receita de família, uma propaganda de fast-food ou produtos dispostos na prateleira de um supermercado, nem sempre imaginamos que esses elementos podem nos
ensinar sobre História. E podem! Embora o ato de se alimentar constitua uma necessidade biológica, as formas pelas quais produzimos, distribuímos, escolhemos, preparamos e compartilhamos os alimentos são construídas historicamente e, portanto, revelam aspectos importantes das sociedades em diferentes tempos e espaços (ROSSI, 2014).
Nas últimas décadas, a História da Alimentação tem se consolidado como um campo de pesquisa no Brasil e em outros países. A comida deixou de ser compreendida apenas como uma curiosidade ou um aspecto secundário da vida cotidiana para uma importante chave de interpretação das sociedades. No entanto, o avanço desse campo ainda encontra dificuldades para se refletir nas salas de aula. Embora a alimentação esteja presente nas políticas educacionais brasileiras como um Tema Contemporâneo Transversal, sua dimensão histórica permanece pouco explorada no cotidiano escolar (BNCC, 2017; BNCC, 2018).
Foi diante desse cenário que, em 2025, nasceu o projeto Alimentação e Saúde em Perspectiva: Diálogos entre Políticas Públicas e Práticas Educativas, desenvolvido na Casa de Oswaldo Cruz – Fiocruz1. Com o objetivo de discutir a alimentação como objeto de ações políticas, culturais e econômicas, o projeto atua em três frentes: oficinas com alunos da educação básica em escolas públicas do estado do Rio de Janeiro, formação continuada de docentes e produção de materiais didáticos2.
Este artigo busca discutir os desafios e as possibilidades de incorporar a História da Alimentação ao ensino de História por meio da produção de materiais didáticos destinados à Educação Básica.
A metodologia adotada para a produção dos materiais didáticos partiu dos conteúdos curriculares e temas transversais previstos para cada ano de escolaridade, tendo como referência a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Buscou-se aproximar esses conteúdos de questões próprias da História da Alimentação. A partir daí, foram selecionadas fontes históricas, adaptada a linguagem e elaborados recursos visuais e atividades adequados à faixa etária dos estudantes. A produção dos materiais envolveu, ainda, a experimentação de diferentes estratégias de apresentação, considerando as características e necessidades do público-alvo.
Um dos principais objetivos deste projeto é fazer com que a História da Alimentação chegue à sala de aula sem transformá-la em mais um conteúdo a ser acrescentado ao currículo ou mais uma demanda para o corpo docente. Para isso, a estratégia adotada foi utilizar a alimentação como uma chave para abordar processos históricos que já fazem parte do currículo do ensino de História. Outra preocupação foi evitar que a alimentação fosse tratada apenas como ilustração, uma vez que acrescentar uma imagem de comida a uma aula sobre o Egito ou mencionar alimentos consumidos durante o período colonial não é suficiente para constituir uma abordagem da História da Alimentação.
Desse modo, interessa perceber de que maneira a alimentação permite formular perguntas históricas, de forma a fazer com que a comida se transforme em problema histórico. Com esse intuito, temas tradicionalmente trabalhados em sala de aula têm sido revisitados a partir da produção, circulação e consumo de alimentos, das relações de trabalho envolvidas em sua obtenção, dos conhecimentos necessários ao seu preparo, das desigualdades no acesso à comida e das dimensões culturais e políticas do comer. Essa perspectiva permite abordar desde as sociedades antigas e a colonização até processos como industrialização e formação da sociedade de consumo, sem tratar a alimentação em um tema apartado do currículo.
Dentre os desafios encontrados durante a produção desses materiais didáticos, encontra-se o de transformar a pesquisa acadêmica em material destinado aos estudantes. Para tanto, é necessária a realização de uma série de escolhas, tais como: que parte daquele conhecimento é importante para compreender determinado processo histórico? Que documento pode funcionar como fonte para um estudante de 11, 12 ou 13 anos? Quanto é preciso explicar antes de apresentar a fonte? Que vocabulário utilizar? Como formular perguntas sem apresentar previamente as respostas? E como relacionar essas escolhas às habilidades previstas para aquele ano de escolaridade?
Vale destacar que a produção dos materiais didáticos considera a linguagem e a faixa etária dos estudantes. Os conteúdos da pesquisa histórica passam por seleção e reelaboração, buscando preservar a complexidade dos problemas sem apenas reproduzir a linguagem acadêmica. Por isso, são utilizados textos breves, linhas do tempo, mapas, imagens, boxes explicativos e perguntas que contribuem para uma narrativa visual e textual acessível.
Outra preocupação que merece destaque é sobre o uso das fontes históricas, elas ocupam lugar central no material. Pinturas, fotografias, mapas, propagandas e outros registros são contextualizados e incorporados à construção da narrativa, aproximando os estudantes das evidências utilizadas para produzir conhecimento sobre o passado. Um exemplo disso pode ser observado abaixo no material sobre sociedades antigas, que recorrem a pinturas, objetos e registros arqueológicos para relacionar práticas alimentares a trabalho, religião, saúde e vida cotidiana.

GIL; AMORIM. Material didático produzido para o 6 ano do Ensino Fundamental (anos finais).
Por fim, os materiais procuram colocar o estudante em uma posição ativa diante do conhecimento histórico. Perguntas, comparações e situações de problematização são utilizadas para provocar a observação e questionar interpretações naturalizadas sobre o passado. Interessa-nos, portanto, estimular operações próprias do pensamento histórico: observar fontes, estabelecer relações, identificar mudanças e permanências, confrontar representações e formular perguntas sobre diferentes sociedades.
________________________________________________Sobre as autoras
Lidiane Monteiro Ribeiro é Professora da educação básica na rede estadual do Rio de Janeiro e na rede municipal de Armação dos Búzios. Doutora em História das Ciências e da Saúde (COC/FIOCRUZ) e pesquisadora em estágio pós doutoral na mesma instituição.
Caroline Gil é Graduada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutora em História das Ciências e da Saúde pela Casa de Oswaldo Cruz (COC/FIOCRUZ). Com atuação na Educação Básica.
________________________________________________________Notas
1) O projeto, que conta com financiamento do Programa de Extensão da Pós-Graduação – PROEXT-PG/CAPES-FIOCRUZ e é coordenado pela pesquisadora Gisele Sanglard, e reúne a colaboração de pesquisadores e alunos da pós-graduação. Está vinculado ao Núcleo de Estudos de História da Alimentação (NEHA/COC/FIOCRUZ).
2) A pesquisa e o levantamento dos materiais contaram com a colaboração de Júlia Leite, graduanda em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bolsista CAPES/PROEXT. Registramos aqui nosso agradecimento pela contribuição ao desenvolvimento do projeto.
________________________________________Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2017.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018.
ROSSI, Paolo. Comer: necessidade, desejo, obsessão. São Paulo: Unesp, 2014.

Deixe uma resposta