O aniversário: um alerta para tempos de ascensão de ideias autoritárias
por Julio Cesar Teles
“Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu não
(Martin Niemöller)
protestei — porque não era socialista.
Depois vieram buscar os sindicalistas, e eu não
protestei — porque não era sindicalista.
Então vieram buscar os judeus, e eu não protestei — porque não era judeu.
Então vieram buscar a mim — e não havia mais ninguém que pudesse protestar.”
A frase que abre este texto é particularmente relevante porque condensa uma reflexão sobre silêncio, responsabilidade e indiferença diante da perseguição política. Sua autoria é atribuída ao pastor luterano alemão Martin Niemöller, que, durante os anos 1920 e o início dos anos 1930, manifestou simpatia por setores da direita radical e pelo nacional-socialismo. Depois da chegada de Hitler ao poder, contudo, Niemöller passou a se opor à interferência do regime na Igreja Protestante e tornou-se um dos críticos do governo nazista. Em 1937, foi preso e permaneceu encarcerado até o fim da guerra.
Há, entretanto, uma importante precisão histórica: a formulação mais conhecida de sua declaração não foi escrita na década de 1930. Ela deriva de discursos proferidos por Niemöller no pós-guerra e apresenta diferentes versões, conforme a ocasião. O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos¹ registra, inclusive, variações na ordem e nos grupos mencionados. O sentido fundamental, contudo, permanece: a denúncia da cumplicidade produzida pelo silêncio diante da perseguição de grupos que, inicialmente, não reconhecemos como pertencentes a nós.
É justamente essa dimensão que torna a reflexão de Niemöller interessante para pensar O aniversário (Anniversary, 2025²), dirigido por Jan Komasa. O filme parte de uma situação aparentemente banal — uma comemoração familiar do aniversário de casamento — para construir, progressivamente, uma narrativa sobre a transformação de uma sociedade e sobre os efeitos dessa transformação no interior de uma família. O movimento denominado The Change (“A mudança”) começa como uma ideia política, ganha adesão social e, gradativamente, transforma-se em uma estrutura de poder capaz de interferir nas relações privadas, nas instituições e na própria possibilidade de discordância.

A pergunta que o filme nos coloca, portanto, não é apenas o que acontece quando um regime autoritário chega ao poder. Há uma questão anterior e talvez ainda mais incômoda: o que acontece quando determinadas ideias começam a parecer aceitáveis antes mesmo de se transformarem em práticas políticas?
Quando uma ideia deixa de ser apenas uma ideia
A história começa na celebração dos 25 anos de casamento de Ellen e Paul. A família parece representar justamente aquilo que o filme posteriormente colocará em questão: a convivência entre pessoas diferentes, com trajetórias profissionais distintas, posições políticas variadas e liberdade para construir seus próprios caminhos.
Ellen é professora universitária e aparece, logo no início, defendendo uma postura intelectual que não se pretende simplesmente partidária. Seu papel, tal como o filme o apresenta, está relacionado à possibilidade de expor ideias e confrontá-las.
Essa concepção é particularmente relevante para pensar o próprio sentido da educação. Ensinar não deve significar produzir adesão a determinada posição política, mas criar condições para que o estudante conheça diferentes perspectivas, compreenda seus argumentos, reconheça suas contradições e seja capaz de formar um juízo próprio. É justamente nesse universo que Liz reaparece.
Durante a comemoração, Josh, o filho caçula, apresenta à família sua nova namorada. Liz, inicialmente, parece apenas uma jovem educada e cuidadosa. Entretanto, em um diálogo com a própria Liz, Ellen percebe que já a conhece: ela havia sido sua aluna anos antes e deixara a universidade depois de apresentar uma tese cujas ideias defendiam uma transformação radical da ordem política. Ideias classificadas por Ellen como antidemocráticas. O reencontro produz, assim, uma tensão que não está apenas no passado acadêmico de Liz. O que antes aparecia como uma formulação intelectual agora começa a adquirir uma dimensão social.
Liz presenteia Ellen com seu livro, The Change. O que antes poderia ser tratado como uma tese controversa, ao ser publicada por uma editora de uma empresa, transforma-se em movimento político. É aqui que o filme se torna especialmente interessante.

Ideias não permanecem necessariamente no plano das ideias. Elas podem orientar comportamentos, organizar grupos, produzir instituições e legitimar formas de exercício do poder. Uma concepção política pode nascer como argumento, converter-se em programa, tornar-se movimento e, finalmente, transformar-se em prática de governo. Não se trata, evidentemente, de afirmar que toda ideia controversa conduz inevitavelmente ao autoritarismo. A questão é outra: uma sociedade democrática depende da possibilidade de submeter permanentemente as ideias à crítica.
Quando uma ideia deixa de admitir questionamento, quando a discordância passa a ser interpretada como traição e quando a pluralidade começa a ser considerada um obstáculo à unidade política, abre-se um problema que ultrapassa o debate intelectual.
The Change é apresentado como a ideia de um projeto de unificação. Seu discurso procura produzir a imagem de uma sociedade reconciliada, unida e capaz de superar as divisões políticas. Essa promessa é sedutora justamente porque parte de um desejo legítimo: o de viver em uma sociedade menos fragmentada. Uma sociedade pode buscar convergências sem eliminar diferenças, procurar consensos sem abolir dissensos e construir projetos coletivos sem exigir que todos pensem da mesma maneira.

A democracia não consiste simplesmente na existência de uma maioria. Ela também pressupõe instituições, direitos, pluralidade, liberdade de expressão, possibilidade de oposição e mecanismos pelos quais aqueles que governam podem ser contestados e substituídos. Por isso, somente ser uma ideia adotada pela maioria não transforma automaticamente qualquer decisão em democrática. A própria democracia constitucional estabelece limites à vontade majoritária quando estão em jogo direitos fundamentais e as condições que permitem a continuidade da disputa política.
O problema representado pelo filme está justamente na passagem de uma política de convencimento para uma política de imposição. Quando a unidade passa a ser mais importante do que a pluralidade, a discordância deixa de ser compreendida como parte legítima da vida política e passa a ser tratada como ameaça. É nesse momento que a família de Ellen começa a se desfazer.
Uma das escolhas mais interessantes de Jan Komasa é não apresentar a transformação política apenas por meio das instituições do Estado. O filme mostra seus efeitos dentro da própria família. A cada aniversário, acompanhamos uma família transformada. As relações que pareciam sólidas vão sendo atravessadas pelo novo contexto político. As escolhas individuais passam a ter consequências políticas; as posições políticas passam a interferir nas relações afetivas; e a discordância, antes possível, passa a adquirir um custo cada vez maior.
A filha comediante que critica o movimento passa a ser perseguida. O filho, agora marido de Liz, aproxima-se progressivamente da nova ordem. A mãe, que inicialmente procura apenas alertar a família sobre aquilo que reconhece como perigoso, termina também transformada em inimiga. Essa dimensão é particularmente importante porque demonstra que o autoritarismo não precisa começar necessariamente pela destruição imediata das relações privadas. Ele pode começar pela transformação daquilo que uma maioria considera aceitável dizer, pensar ou questionar.
O perigo está na normalização e na indiferença, como sugere a epígrafe deste texto. Primeiro, uma determinada ideia parece apenas provocativa. Depois, torna-se uma possibilidade. Em seguida, ganha adeptos. Posteriormente, conquista instituições. Finalmente, aquilo que antes parecia impensável passa a ser apresentado como a única alternativa possível. O problema não começa necessariamente quando alguém vem “buscar” o indivíduo. Pode começar muito antes: quando ele observa alguém sendo perseguido e conclui que aquela perseguição não lhe diz respeito.
O filme de Komasa apresenta uma sociedade na qual a diversidade de opiniões deixa gradualmente de ser compreendida como uma característica da vida democrática. A pluralidade passa a ser vista como fragmentação; a crítica, como sabotagem; a oposição, como inimiga; e a unidade, como condição absoluta da ordem.
É nesse ponto que a reflexão de Hannah Arendt³ pode contribuir para a leitura do filme. É importante, contudo, não tratar autoritarismo e totalitarismo como conceitos equivalentes. Em Arendt, o totalitarismo possui características específicas e não corresponde simplesmente a uma forma mais intensa de autoritarismo. Ainda assim, sua análise ajuda a compreender como formas de dominação política podem atingir as condições pelas quais os indivíduos preservam a capacidade de agir e pensar de maneira independente.
O aniversário representa, sobretudo, um processo de transformação de uma sociedade democrática em uma ordem autoritária que progressivamente reduz o espaço para o dissenso e para a pluralidade. A dimensão totalizante sugerida pelo filme pode ser pensada justamente a partir desse processo: não apenas a concentração do poder, mas a tentativa de reorganizar as relações sociais segundo uma lógica na qual a divergência passa a ser considerada uma ameaça.
A diferença não é apenas terminológica. Ela nos ajuda a perceber que regimes políticos não surgem prontos, ao contrário eles são históricos. Existem processos de transformação, disputas, adesões, silêncios e normatizações que podem preceder sua consolidação.
O filme e o presente
É difícil assistir ao filme sem pensar no presente. Não porque a história de O aniversário seja uma reprodução literal de qualquer experiência política contemporânea, mas porque seu mecanismo narrativo é reconhecível: uma sociedade dividida, uma promessa de unidade, uma ideia apresentada como solução para os conflitos, a construção de um inimigo e, finalmente, a redução do espaço para a crítica. Esse mecanismo merece atenção especialmente em períodos eleitorais.
Não se trata de atribuir automaticamente a determinado candidato, partido ou grupo político as características apresentadas no filme. Trata-se de utilizar a ficção como instrumento para formular perguntas sobre a própria democracia. O que significa defender a liberdade? Quem pode discordar? O adversário político continua sendo reconhecido como cidadão ou passa a ser tratado como inimigo? A maioria pode fazer qualquer coisa? A democracia continua existindo quando a vontade majoritária passa a justificar a eliminação dos direitos daqueles que discordam? Essas perguntas são mais importantes do que qualquer resposta pronta.
Em uma sociedade democrática, a liberdade não pode ser apenas a liberdade daqueles que concordam conosco. A democracia também precisa proteger a possibilidade de discordar dela, de criticar seus governos, de questionar suas maiorias e de propor alternativas.
Talvez seja justamente essa a maior contribuição de O aniversário: lembrar que a democracia não desaparece apenas quando alguém anuncia publicamente que pretende destruí-la. Ela também pode ser enfraquecida quando a crítica é ridicularizada, quando a pluralidade é tratada como fraqueza, quando a oposição é transformada em inimiga e quando a promessa de uma sociedade “unificada” começa a parecer mais importante do que a liberdade daqueles que nela vivem.
O filme nos lembra, por fim, que essas transformações não acontecem apenas nas instituições políticas. Elas atravessam as relações cotidianas. A família de Ellen não deixa de existir porque, de repente, todos se tornam pessoas diferentes. Ela se desfaz à medida que a diferença deixa de ser suportável; à medida que o filho passa a exercer o poder sobre os próprios pais; a medida que a aparência de boa moça de Liz se desfaz e mostra sua verdadeira face4.
E talvez seja justamente aí que O aniversário encontre sua força: ao mostrar que a democracia não é apenas um sistema de governo, mas também uma forma de convivência com aqueles que pensam de maneira diferente de nós. Quando o adversário deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser considerado um inimigo que não deveria pertencer à comunidade, a política deixa de disputar apenas projetos de sociedade. Ela passa a disputar os próprios limites de quem pode fazer parte dela.
É nesse ponto que a epígrafe de Niemöller retorna ao seu sentido mais profundo. O problema não começa somente quando alguém vem buscar a nós. Começa quando aceitamos que podem buscar o outro.
__________________________________________________Sobre o autor
Professor de História da Educação Básica, doutorando no PPGH/Unifesp, membro do Centro de Estudos e Pesquisa em Probabilismo e Retórica Jurídica (CEPPRO), tem interesses em história da justiça e do direito, história ibero-americana, história das ideias e em temas relacionados a Educação em Direitos Humanos. Participa de projetos de extensão como o podcast Fala Comigo, Monalisa!
________________________________________________________Notas
¹ UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Martin Niemöller: “First they came for the Socialists…”. Holocaust Encyclopedia. Disponível em: www.encyclopedia.ushmm.org. Acesso em 28 set. 2026.
² Anniversary [Rocznica / The Change]. Dirigido por Jan Komasa. Estados Unidos: Fifth Season; Chockstone Pictures; Churchill Films, 2025.
³ ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
4 Por verdadeira face entendo o propósito verdadeiro da personagem que aparece no fim do filme e que não revelo explicitamente no texto com a intenção de que o leitor e a leitora assistam.

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