
Mas, isso que você está explicando, vai cair na prova paulista?
por Pablo Henrique
“Mó ruim né, professor, não tinha nem celular nessa época”, essa frase foi dita por um aluno do 8°Ano do Ensino Fundamental, em uma escola no extremo leste de São Paulo, localizada em Guaianazes. Era uma aula sobre revolução francesa, os alunos estavam organizados para realizar uma análise iconográfica sobre o processo revolucionário que derrubou o Antigo Regime na França. No momento que o aluno disse essa frase, fui diretamente à minha mesa e anotei no caderno onde faço observações sobre as aulas. Uma outra frase que anotei, em outra aula, mas não com tanto entusiasmo, foi: “Mas, isso que você está explicando, vai cair na prova paulista?” Esperei a aula acabar, os alunos saíram para almoçar e fiquei na sala para anotar a frase dessa aluna.
No contexto da primeira frase, foram entregues 3 imagens, a primeira continha uma gravura sobre a marcha das mulheres parisienses contra o palácio de Versalhes; a segunda, a execução do rei Luís XVI da França; a terceira, a coroação do Imperador Napoleão e da Imperatriz Joesefina na Catedral Notre-Dame de Paris. A análise, em primeiro momento descritiva, não poderia exigir nada deles naquele momento, a não ser fazer relações anteriores com as aulas sobre iluminismo. Preparar os meus alunos para o conteúdo de Revolução francesa foi um trabalho difícil, levando em consideração que o material digital oferecido pela Secretária da Educação do Estado de São Paulo (SEDUC ) excluía muita coisa sobre o próprio movimento intelectual que influenciou a Revolução, entre outros conteúdos. Por isso decidi eu mesmo elaborar e organizar uma sequência, de modo a trabalhar com os conceitos de política, trabalho e economia, com a Revolução gloriosa na Inglaterra, com as figuras femininas e os embates com o próprio direito do homem e do cidadão no iluminismo. Por opção (e respeito ao meu exercício profissional como professor), decidi não usar nas minhas aulas o material digital oficial, e tive um trabalho maior, é claro, um trabalho de organizar as fontes primárias, estruturar a minha sequência didática, fazer um levantamento bibliográfico etc.

A frase do estudante, ao desconsiderar alguns itens que estavam sendo representados nas gravuras, e focar apenas na ausência do aparelho eletrônico, expondo para mim e para os seus colegas essa obviedade, fez com que eu tomasse um caminho diferente daquele de reclamar que ele não estava prestando atenção direito e deveria seguir o que estava sendo pedido. Decidi seguir o caminho do imprevisto na aula. Tais imprevistos, como sugere Fernando Seffner, não devem ser desperdiçados:
“Esse é um procedimento que deveria ser mais frequente nos professores: atentar para certas respostas, claramente erradas, e propor uma reflexão para saber de onde veio essa associação que produziu o erro”.
SEFFNER, 2010, p. .
A aula seguiu a partir da frase do estudante. Consegui transformá-la, explicando até mesmo o que era anacronismo e que a atribuição de valores era diferente, por isso os franceses não estavam tão preocupados com um celular. O “e se” que aqui fica é: e se eu seguisse o Material Digital, o aluno falaria aquilo naquele momento? Talvez sim. Mas eu, como professor, daria tanta importância para a pergunta desse estudante ou estaria preocupado em “dar a matéria” ou “vencer o conteúdo” pelos Slides? Se a resposta fosse no caminho de passar a matéria e não dar tanta importância para o apontamento do aluno, a sensação de esvaziamento, como Seffner também cita, seria grande no fim da aula.
Na segunda frase já não consegui ter uma resposta tão rápida, ficando sem reação com a pergunta da aluna, não conseguiria forçar para que ela se interessasse sobre as figuras femininas na França do século XVIII e a luta por direitos da mulher e da cidadã no 8°Ano. Muito menos falar que uma prova externa não era importante, pois além da questão da nota dos estudantes somos avaliados por metas na unidade a partir do desempenho deles com essas provas, mesmo que este ano eu não esteja ligando tanto para isso. Essa frase reverberou na sala toda, o receio era de que a aula não tivesse o mesmo ritmo ao final dela. Refletindo depois, entendi que a preocupação da aluna era legítima, não era para me afrontar, pois a gestão, alguns professores e até mesmo os estudantes estão imersos no espírito empresarial que as escolas do estado de São Paulo e outros estados estão tendo. A aluna estava preocupada em alcançar meta e não em aprender, obter conhecimento estava em segundo plano para a estudante.
A escola onde trabalho é um PEI (Projeto de Ensino Integral), eu poderia facilmente me curvar ao material digital pela facilidade de acesso aos slides prontos de cada aula do bimestre inteiro, fazendo meu trabalho ser “mais fácil” diariamente, sendo apenas o passador de conteúdo com o PowerPoint pronto da aula fazendo esse serviço de dar a aula por mim. Isso também tiraria o peso da minha carga horária, onde trabalho 40 horas semanais na mesma unidade e tenho 32 aulas, sendo a maioria não de história, mas de tecnologia.
Não julgo o professor por optar pelo uso desse material digital que te entrega de bandeja todo o conteúdo bimestral pronto para ser apresentado ao estudante, apenas decidi não usar, sabendo que, se eu utilizasse, também seria um produto/supervisor nessa lógica de educação e o estudante o consumidor/ funcionário. Paula Sibilia analisa este consumidor dentro e fora do ambiente escolar, ao compreender, historicamente, a escola enquanto tecnologia de época na transição do século XX e XXI. Em seu livro Redes ou Paredes: A escola em tempos de dispersão, a autora expõe a instituição escola dentro do modelo de empresa:
“Outra característica basilar desse novo mapa é a entronização da empresa como uma instituição-modelo, que impregna todas as demais ao contagiá-las com seu “espírito empresarial”. Inclusive a escola, é claro, assim como os corpos e as subjetividades que por ela circulam”
SIBILIA, 2012, p.
A minha atuação docente nesse momento, como professor de escola pública no estado de São Paulo, passa por não aceitar essa ideia empresarial na sala de aula, mesmo que em alguns momentos, no início da profissão, me vi engajado nessas ideias de metas numéricas apenas para ganhar uma bonificação, ego ou qualquer coisa do tipo. Ser professor de história vai além disso, tentarei até o último momento, mesmo que tire algumas horas de sono, sempre pensar em uma boa aula, além de materiais genéricos.
__________________________________________________Sobre o autor
Sou Pablo Henrique, Licenciado em História desde 2020, Professor de Ensino Médio e Fundamental II no Programa de Ensino Integral (PEI) no estado desde 2021. Mestrando no Programa de Mestrado Profissional em Ensino de História da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), elaboro minha pesquisa integrando uso de tecnologias digitais e o ensino de história, para favorecer um uso ético e responsável das novas tecnologias na produção e difusão de linguagens e narrativas históricas.
________________________________________Referências bibliográficas
França. NL o. (27 de junho de 2022). Marcha das Mulheres em Versalhes. 5 de outubro de 1789. Enciclopédia de História Mundial. https://www.worldhistory.org/image/16066/womens-march-on-versailles-5-october-1789/. Acesso em: 06/04/2026.
SIEVEKING, Georg Heinrich. Execution of Louis XVI. 1793. Gravura. Disponível em: https://pdimagearchive.org/images/79501bf6-fc6a-451c-b113-58c1aad57974/. Acesso em: 06/04/2026.
DAVID, Jacques-Louis & Rouget, Georges. A coroação do imperador Napoleão e da imperatriz Josefina na Catedral de Notre-Dame de Paris. 1805–1807. Disponível em: https://guiadolouvre.com/napoleao-coroando-a-imperatriz-josefina/ Acesso em: 06/04/2026.
SEFFNER, Fernando. Saberes da docência, saberes da disciplina e muitos imprevistos: atravessamentos no território do ensino de História. In: BARROSO, Véra Lucia Maciel et al. (org.). Ensino de História: Desafios Contemporâneos. Porto Alegre: EST: EXCLAMAÇÃO: ANPUH/RS, 2010. p. 213-229.
SIBILIA, Paula. Redes ou Paredes. A escola em tempos de dispersão, Rio de Janeiro: Contraponto, 2012. “Os incompatíveis: outros tipos de corpos e subjetividades” p. 45-61.

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