Quando o fim é também o começo: Professoras e professores da EJA como sujeitos de saber, afeto e resistência

por Cauê Caic Gomes

6–9 minutos

“Um fio invisível e tônico
tece pacientemente a rede
de nossa resistência milenar.”

Conceição Evaristo

Há um gesto que a artista mineira Sônia Gomes repete em sua obra: recolher aquilo que o tempo descartou, tecidos que já cumpriram sua função, retalhos que perderam o corpo que os habitava, e, com eles, tecer uma forma nova. Não se trata de restaurar o que era, nem de lamentar o que se foi. Trata-se de puxar os fios da memória e reuni-los de tal modo que eles retornem ao presente, interpelem o nosso tempo e criem, a partir do fim de uma coisa, o começo de outra. É assim que uma de suas obras mais emblemáticas se chama: Memória (2004).

Penso nesse gesto sempre que penso na Educação de Jovens e Adultos.

Porque a EJA é, antes de tudo, um lugar onde o fim também pode ser começo. O fim da jornada de trabalho que se torna início da aula. O fim do dia que a escola regular encerrou, muitas vezes com reprovação e vergonha, que se transforma em recomeço. Não uma “segunda chance”, se por chance entendemos favor, mas a retomada de um direito interrompido. Para muitos estudantes, a sala noturna é a primeira vez em que alguém escuta, com seriedade, aquilo que eles já sabem.

E há, nesse limiar entre o fim e o começo, professoras e professores que permanecem.

Miguel Arroyo chamou os sujeitos da EJA de passageiros da noite. No livro que leva esse título, ele os descreve chegando do trabalho, obrigando seus mestres-educadores a compreender de onde vêm, para onde voltam, de que itinerários humanos e desumanos, de que vivências injustas, mas resistentes (Arroyo, 2017). A imagem é precisa porque é dupla: há os estudantes, que chegam carregando turnos exaustivos nas fábricas, nos serviços, nas cozinhas; e há docentes que chegam carregando o peso de uma modalidade sistematicamente desestruturada, precarizada e invisibilizada pelo Estado. Todos passageiros da mesma noite. Todos resistindo ao mesmo apagamento.

O que não se diz sobre essa noite? Quase tudo.

Há uma professora de matemática, com 32 anos de magistério, que narra, em pesquisa de mestrado sobre trajetórias docentes na EJA (Gomes, 2025), a visita feita a um aluno que vivia com HIV e estava internado às vésperas de seu passamento. Ele havia pedido para vê-la. “No outro dia ele faleceu. Isso me fez refletir muito. E não ter desistido e continuar e saber que aquilo que eu tava fazendo — que eu tava no caminho certo, porque eu fiz diferença na vida daquele menino.” A frase para. Não teoriza. Não se justifica. Fica suspensa como quem sabe que certas coisas precisam ser ditas mesmo quando não cabem em palavras.

É disso que trata o saber de experiência: aquilo que não se generaliza, não se transfere e não se ensina em nenhum módulo de formação continuada, mas que transforma irreversivelmente quem o viveu. Jorge Larrosa Bondía propõe pensar a educação não pelo par ciência/técnica, nem pelo par teoria/prática, mas pelo par experiência/sentido. Experiência, para ele, é o que nos passa, nos acontece, nos toca; e o sujeito da experiência é aquele que, ao ser tocado, se abre à própria transformação (Bondía, 2002). A professora que foi ao hospital não cumpria uma obrigação curricular. Estava sendo atravessada por algo para o qual a formação inicial não a havia preparado, e do qual emergiu outra, mais inteira, mais certa do porquê de permanecer.

Esse permanecer é uma das questões mais urgentes da EJA hoje. A modalidade perdeu mais de 20% de suas matrículas no Brasil entre 2020 e 2024. No estado de São Paulo, mais de 85 mil matrículas presenciais deixaram de existir em apenas quatro anos. Uma professora que acompanhou esse desmonte nomeia com precisão o que vê: “Estão num projeto mesmo de aniquilação da EJA. Quanto menos EJA, melhor. A sociedade também não nos enxerga, não sabe nem o que é.”

Há, ainda, uma tensão pouco enfrentada no debate público: enquanto o volume de matrículas encolhe, a EJA está progressivamente mais jovem. Hoje, 63,9% de seus estudantes têm menos de 40 anos; mais de 600 mil têm menos de 25. São jovens que chegam à EJA após percursos interrompidos no ensino regular: reprovações sucessivas, necessidade de trabalhar cedo, vidas que a escola diurna não conseguiu acolher. Chegam carregando aquilo que o sistema muitas vezes não soube ler: experiência. Muita. E professoras e professores precisam, a cada ano, reinventar as artes de compreender de onde esses novos passageiros vêm e para onde desejam ir.

Paulo Freire nos lembra que ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho: as pessoas se educam em comunhão, mediadas pelo mundo (Freire, 1987). Na EJA, essa máxima se radicaliza, porque quem aprende e quem ensina trocam de lugar com uma frequência que desestabiliza qualquer hierarquia rígida. Uma professora de pedagogia conta que apresentou a uma estudante trans as políticas afirmativas e de ingresso da UNIFESP. A estudante respondeu: “Eu não acredito que vou ser universitária.” A professora devolveu: “Vai. Você vai ser o que você quiser, mas você vai.” A estudante concluiu o curso, foi oradora da turma e passou a projetar a universidade como horizonte possível.

Esse gesto não é caridade. É a produção coletiva de um inédito viável: aquilo que, embora ainda não concretizado, já pode ser vislumbrado como possibilidade histórica por quem age como se o presente pudesse ser diferente (Freire, 1987). Não há redenção sentimental nisso. Há práxis: denúncia do que existe e anúncio do que pode existir.

A mesma professora havia se afastado do trabalho por transtorno de ansiedade, vítima de uma gestão escolar opressora. Decidiu retornar. E disse, sem drama e sem heroísmo: “Eu falo que eles me salvam todos os dias. Estar na EJA tá me fortalecendo enquanto pessoa.” Não se trata de inverter sentimentalmente os papéis. Trata-se de reconhecer, com Freire, que a libertação é sempre mútua: professora e estudantes se humanizam no mesmo gesto, no mesmo fim-que-é-começo de cada noite.

Outra professora, depois de 27 anos de magistério e 19 dedicados à EJA, resume com a precisão de quem parou para pensar: “A gente tem que ser teimoso e continuar acreditando. Não deixe de acreditar.” O verbo é imperativo, mas não é ordem: é convocação. É o que Freire chamou de esperançar — verbo, não substantivo —, que não é espera passiva, mas práxis de quem vê as contradições com lucidez e, ainda assim, age apesar delas (Freire, 1992).

A EJA existe hoje não porque o Estado a sustenta como deveria. Os dados demonstram o contrário, há décadas. Ela existe porque há sujeitos que, diante de gerações de descontinuidades e abandonos, escolhem recolher, a cada noite, os retalhos que o sistema descartou e fazer com eles algo que ainda não existia: uma trama que interpela o presente e diz ao estudante chegado do turno exausto que ele não veio zerado; veio com uma carga de conhecimento que precisa ser reconhecida, validada e valorizada.

Reconhecer isso não significa romantizar a resistência docente, nem transformar abandono em virtude. Ao contrário: significa tornar visível a brutalidade de um sistema que se apoia, muitas vezes, no afeto e na teimosia de seus educadores para continuar funcionando. A beleza do gesto não absolve o Estado de sua responsabilidade. Ela apenas revela que, onde há apagamento, há também sujeitos que insistem em acender luzes.

Sônia Gomes sabe disso. Sua obra Memória começa onde algo terminou.

E assim também a EJA: cada aula começa quando o dia acabou. Cada professora e professor que escolhe permanecer nessa noite está, fio a fio, tecendo a cada noite o sol.

__________________________________________________Sobre o autor

Cauê Caic Gomes é professor e pesquisador em Educação de Jovens e Adultos. Mestre em Educação: Formação de Formadores pela PUC-SP (2026), com dissertação sobre representações sociais, afetividade e resistência docente na EJA.

________________________________________Referências bibliográficas

ARROYO, Miguel G. Passageiros da noite: do trabalho para a EJA: itinerários pelo direito a uma vida justa. Petrópolis: Vozes, 2017.

BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, n. 19, p. 20–28, 2002.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

GOMES, Cauê Caic. Tecelões do esperançar: trama de experiência, afeto e resistência na Educação de Jovens e Adultos. 2025. 154 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Educação: Formação de Formadores) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2025.

INEP. Censo Escolar da Educação Básica 2024: notas estatísticas. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2025.

REPU. Nota Técnica: Redução na oferta da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e do ensino noturno na rede estadual de São Paulo, 2020-2023. Rede Escola Pública e Universidade, 2024.



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