Entre o controle e a autonomia: desafios do ensino de História na rede estadual de São Paulo

por Dalmo Alexsander Fernandes

7–11 minutos

Em 2023, participei do 32º Simpósio de História da Anpuh Nacional, realizado na cidade de São Luís, Maranhão. Durante o evento, assisti a uma mesa intitulada “O ensino de história, seus professores e sua formação: Um historicídio entre negacionismos e reformas curriculares neoliberais”, da qual participava a Profa. Dra. Cyntia Simioni, da Universidade Estadual do Paraná. Em sua exposição, a professora Simioni apresentou, de forma bastante contundente, as transformações em curso na educação pública do estado do Paraná, com ênfase nas novas formas de controle do trabalho docente por meio de plataformas tecnológicas. 

O que tornou seu relato particularmente impactante foi o fato de que as mudanças descritas haviam sido implementadas pelo mesmo secretário de educação (Renato Feder) que, naquele momento, acabava de assumir a Secretaria da Educação do estado de São Paulo (Seduc-SP) — rede na qual atuo como professor há 12 anos. Ao retornar do simpósio, participei de uma reunião de replanejamento que antecedeu o reinício das aulas. Para minha surpresa e preocupação, boa parte das medidas denunciadas pela professora Simioni já se encontravam em processo de implantação na rede paulista. Nos anos subsequentes, esse movimento não apenas se confirmou como se intensificou, assumindo contornos cada vez mais rígidos e punitivos em relação à prática docente.

Dessa forma, a experiência cotidiana nas escolas da rede estadual de ensino, tem revelado uma tensão crescente entre a lógica controladora da padronização curricular e a qualidade da aprendizagem histórica. Como professor de História inserido nessa realidade, observo que as plataformas digitais de ensino, os currículos apostilados de progressão linear e os sistemas de bonificação por resultados (como o IDESP¹), embora apresentados como modernização necessária e solução para as “falhas” do sistema, operam frequentemente como um mecanismo de controle que produz efeitos colaterais pedagógicos graves: reduz a reflexão crítica, atrofia a autonomia intelectual do docente e reduz o saber histórico a uma sucessão estéril de fatos, datas e “vencimentos de conteúdo” desconectados da experiência temporal dos(as) estudantes.

Percebo que a tecnologia, até então extremamente limitada no ambiente escolar e que deveria ser um caminho para aguçar a curiosidade, está sendo mal utilizada, acabando por atrapalhar o próprio desenvolvimento da capacidade de resolver problemas e tendo como consequência a piora na qualidade de vida da população.

Em um texto de Isabela Palhares (2024) para a Folha de São Paulo, a jornalista mostra que o controle sobre o ofício do(a) professor(a) tem se intensificado por meio de uma arquitetura digital sofisticada. Logo, não se espera que o(a) docente ensine, mas que comprove o seu trabalho em tempo real: alimente diários de classe online (Sala do Futuro²), aplique avaliações externas padronizadas (Prova Paulista³) e siga cronogramas que ignoram o tempo necessário para a compreensão de um processo complexo. No ensino de História, essa camisa de força metodológica tem consequências intensas: temas sensíveis e estruturantes para a formação cidadã — como os mecanismos de funcionamento da Ditadura Militar (1964-1985), a abolição inconclusa da escravidão e suas reverberações no racismo estrutural, ou a resistência dos povos originários e quilombolas no presente — exigem um tempo didático alargado, o que a imposição de cronogramas rígidos e alinhados a apostilas digitais inviabiliza. A aula de História, nesse modelo, se limita em um cumprimento burocrático de tópicos listados, onde o ato de “dar a matéria” substitui o ato de “pensar historicamente”.

A realidade da sala de aula, contudo, mostra que é possível trabalhar com qualidade mesmo dentro de limites impostos. Professores(as) experientes da rede têm encontrado brechas criativas: utilizam os conteúdos padronizados como ponto de partida, não como ponto de chegada; incorporam músicas⁴, histórias em quadrinhos (meu caso) e filmes⁵ para tensionar o material oficial, impedindo que ela seja apresentada em sala de aula sem questionamentos. Essas práticas infelizmente ainda são realizadas a partir do interesse e dos projetos dentro de sua cultura escolar, isto é, dependem da ação individual ou de um pequeno coletivo aliado a uma gestão disposta a lhes dar suporte, e com uma comunidade escolar disposta a participar. Descobrir pequenos espaços dentro dessa estrutura extremamente controladora, se torna um imperativo essencial, demonstrando que a autonomia docente é indispensável.

“Fico procurando perceber como os professores encontram meios de articular o conhecimento sobre as diferentes maneiras de se celebrar a vida, de se tecer solidariedades, de se afirmarem em suas práticas religiosas e artísticas, à enorme carga de sofrimento físico e psíquico daquelas pessoas e as suas marcas na história de seus descendentes.”

SOUZA, 2016, p. 106

Ao examinar a complexidade das vivências das populações africanas e afrodescendentes — em particular no âmbito da escravidão e do racismo estrutural —, a historiadora Monica Lima e Souza (2016) evidencia a urgência de um enfoque pedagógico que capacite docentes a tecerem articulações entre, de um lado, as múltiplas manifestações de celebração da existência, os laços de solidariedade forjados na adversidade e as expressões artísticas e religiosas dessas comunidades e, de outro, o contexto histórico atravessado por profundas marcas de sofrimento físico e psicológico. Logo, se faz necessário que o agir pedagógico ultrapasse os limites expostos da estrutura educacional atual. Em consonância com esse posicionamento, a historiadora sublinha o imperativo de se valorizar as contribuições históricas legadas pelas populações marginalizadas, no caso afrodescendentes, bem como o peso duradouro que tais experiências exercem sobre a constituição das identidades e sobre os embates travados por seus(suas) descendentes na contemporaneidade.

Dentro desse quadro, a educação deve ser compreendida como práxis pedagógica — articulação indissociável entre teoria e ação —, conforme defende Paulo Freire (1989), que propõe uma práxis educativa que, ao articular a ação com a reflexão crítica, assume caráter transformador da realidade, enfatizando a necessidade de uma postura dialógica que se contraponha às práticas opressoras de dominação. 

Nessa perspectiva, as histórias em quadrinhos como Jeremias: Pele⁶, emergem como ferramentas da cultura midiática capazes de promover uma alfabetização crítica, ao conectar o universo cultural dos estudantes com o ensino de história e suas reverberações contemporâneas. A proposta, de caráter reflexivo e não prescritivo, valoriza a autonomia intelectual docente e visa fomentar uma consciência histórica emancipadora, combatendo o racismo estrutural e visibilizando identidades afrodescendentes de forma complexa e desestereotipada. Nesse momento é importante o(a) professor(a) ser assertivo(a) em seus momentos de ser mais combativo(a) e propor metodologias que abram espaço para debates e reflexões, ao invés de apenas cumprir o cronograma e alcançar índices. Uma tarefa difícil, mas necessária, ou melhor, urgente! 

Por meio da história em quadrinhos Jeremias: Pele, consegui apresentar o potencial criativo dos(as) estudantes por meio da construção de releituras críticas. Esse exercício se materializou de duas formas: 1) na elaboração de quadrinhos autorais que apresentavam experiências pessoais relacionadas ao racismo ou a outras formas de preconceito; 2) na construção de releituras críticas de trechos específicos da obra, como as páginas 68 e 69 (mostradas abaixo), que provocam uma reflexão sobre a pergunta “O QUE VOCÊ VÊ?”. Essa etapa busca sintetizar o aprendizado, promovendo uma reflexão crítica sobre a história e suas conexões com o presente.⁷ 

Páginas da obra CALÇA, Rafael; COSTA, Jefferson. Graphic MSP – Jeremias: Pele. Barueri: Panini Brasil, 2018. pp. 68-69

Por fim, é essencial lembrar que o ensino de História não é mera transmissão de informações. É formação para a cidadania, para o reconhecimento do outro e para a compreensão do presente. Quando a padronização sufoca a pergunta, o debate e o espanto diante do passado, perde-se o mais importante: a capacidade dos(as) estudantes se perceberem como sujeitos(as) históricos(as). Boa parte dos(as) professores(as) da rede estadual sabem disso — e resistem, todos os dias, com poucos recursos e muita criatividade. Falta que as políticas educacionais escutem essa experiência em vez de tentar controlá-la.

__________________________________________________Sobre o autor

Dalmo Alexsander Fernandes é Professor de História há 12 anos na rede estadual de São Paulo, possui graduação em História pela UNESP e mestrado pelo ProfHistória na UNIFESP. Sua dissertação de mestrado uniu o potencial da linguagem das HQs com os estudos de História do Trauma, analisando os impactos transgeracionais da escravização no ambiente da sala de aula.

________________________________________________________Notas

1) O IDESP (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo) é um indicador de qualidade da educação básica paulista, variando de 0 a 10. Ele combina o desempenho dos alunos no SARESP (ou Provão Paulista Seriado) com o fluxo escolar para definir metas anuais de melhoria para as escolas.

2) É uma plataforma digital educacional da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo com o objetivo de modernizar o ensino, utilizando aplicativos, inteligência artificial e materiais digitais e centralizar tarefas, notas e frequências.

3) Avaliação bimestral criada pelo Governo de São Paulo de preparação para o Provão Paulista Seriado, costumeiramente realizado no final do ano letivo, que tem por objetivo oferecer vagas em universidades públicas (USP, Unesp, Unicamp, Fatec, Univesp) a estudantes da rede estadual.

4) OLIVEIRA, Rodrigo Luís de. O ensino de História mediado pela música na Cultura Escolar. Dissertação de Mestrado Profissional em Ensino de História. Universidade Federal de São Paulo. Guarulhos. 2025.

5) SANTOS, Lucas Bernardo dos Santos. “Os 300 de Esparta” e “Holy Terror”: do orientalismo à experiência em sala de aula, a desconstrução do estereótipo árabe no ambiente escolar. Dissertação de Mestrado Profissional em Ensino de História. Universidade Federal de São Paulo. Guarulhos. 2022.

6) Lançada em 2018, a obra foi escrita por Rafael Calça e ilustrada por Jefferson Costa, ela pertence à série Graphic MSP. Nessa edição, o personagem Jeremias ganha protagonismo e se apresenta como um dos melhores estudantes de sua turma, possuindo diversos amigos e um cotidiano bem confortável ao lado de seus pais. Até que um dia percebe como o racismo pode se apresentar em diferentes espaços de sociabilidade, sendo o principal a escola, e passa a questionar sobre como a sociedade julga e discrimina uma pessoa negra e os motivos que levam a tais preconceitos.

7) Parte dos resultados podem ser conferidos na minha dissertação de mestrado: FERNANDES, Dalmo Alexsander. A Representação do Trauma Histórico por meio da História em Quadrinho Jeremias: Pele em Sala de Aula. Dissertação de mestrado. Universidade Federal de São Paulo. Guarulhos, 2025.

________________________________________Referências bibliográficas

CALÇA, Rafael; COSTA, Jefferson. Graphic MSP – Jeremias: Pele. Barueri: Panini Brasil, 2018.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989 p. 124.

PALHARES, Isabela. Tecnologia eleva pressão por resultados e controle do trabalho do professor. São Paulo, 20 out. 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2024/10/tecnologia-eleva-pressao-por-resultados-e-controle-do-trabalho-do-professor.shtml. Acesso em: 10 abr. 2026.

SOUZA, Monica Lima e. Eu quero passar com a minha dor. In: Conversa de Historiadoras. 14 de março de 2016. Disponível em https://conversadehistoriadoras.com/2016/03/14/eu-quero-passar-com-a-minha-dor/?. Acesso em: 13 de abr. de 2026.



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