Vingança como política¹
por Viviane Neme Campos
“Os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso, e a vingança, um prazer”.
(TÁCITO, possivelmente em “Anais”, livro IV)
Com a escrita assertiva e refinada de sempre, em sua coluna na Folha de São Paulo de 14.10.2026, Ruy Castro constata o óbvio, que precisa ser dito: a vingança da família Bolsonaro, a partir de quando o filho primogênito subir a rampa do Palácio do Planalto (se subir). Leiam a íntegra na Folha!
De fato, ninguém pode esperar de Flávio Bolsonaro institucionalidade e postura adequada ao cargo. Essa superioridade exige altivez e espírito público, características nobres que não serão vistas no clã Bolsonaro. Algo assim foi esperado de Lula, que nunca se voltou contra as instituições, nem mesmo contra aquela que o prendeu.
De um Bolsonaro, ninguém é tolo de esperar.
Limites nunca são autoimpostos pela família, que sequer conhece o conceito. Alguém tem que contê-los e eles, obrigados, cedem. No governo de Jair, o Judiciário fez esse papel. Por vezes muito bem, outras nem tanto, mas a atuação da Instituição, do STF, em particular, foi essencial. Realmente fundamental para impedir um golpe de Estado e assegurar a continuidade da democracia. Possíveis críticas a ministros não infirmam o papel desempenhado pela Corte ou mesmo por eles.
Em um eventual governo de Flávio está difícil visualizar quem fará a indispensável contenção do presidente. O Legislativo estará alinhado à extrema direita. O Judiciário, talvez não de imediato, mas candidato e aliados não escondem o projeto autoritário, dirigido à vingança e ao controle desse poder da República.
O povo, sem dúvida, pode muito, mas precisa de visão crítica e reflexiva. Além do que, é mais ouvido na época de eleições e, até o pleito seguinte, muitos retrocessos nos terão alcançado.
Por isso, pense sobre seu voto no próximo dia 25 de outubro.
Com certeza, Flávio Bolsonaro tem eleitores conscientes de sua adesão ao retrocesso e ao fascismo. Não é com eles que gasto essas palavras.
Mas há aqueles que querem apenas mudança, pois não estão satisfeitos. Para esses eleitores, peço que reflitam sobre onde está a insatisfação, sobre de onde ela vem e, principalmente, sobre para aonde ela pode ir com um e com outro governo.
Será que vale a pena depositar alguma esperança em Flávio, que já não se mostra leal como senador? Votou a favor do fim da escala 6×1, sinalizando para apoiadores/financiadores que vai reverter a aprovação após assumir o governo.
Investigue o que quer e verifique se realmente está indo ao encontro do que deseja.
É mesmo Flávio Bolsonaro?
_________________________________________________Sobre a autora
Viviane Neme Campos é bacharel em direito, exerce o cargo de analista judiciário na Justiça Federal da 3ª Região e é membro da equipe editorial da Revista Inditos.
________________________________________________________Notas
1) Texto publicado originalmente nas redes sociais da autora – Viviane Neme Campos (Facebook e Instagram), em 08.10.2026, e republicado com alterações.

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