A crueldade da tecnologia

por Roseli Deienno Braff

2–3 minutos

Lembro-me bem do tempo em que ia ao banco para conferir o saldo da conta corrente – isso mesmo! Em toda agência havia um balcão com um exército de funcionários amáveis e solícitos. A gente entregava o número da conta, e um deles abria uma enorme gaveta-arquivo de onde tirava uma pasta (também enorme) e começava a busca. Cada página continha os últimos lançamentos efetuados pelo correntista. Gentil, o funcionário anotava num pedaço de papel o saldo e – com palavras também gentis – se despedia.

Isso tudo desapareceu com a informatização. A rapidez aumentou. Uma beleza! Agora era só aguardar na fila do caixa, e ele, com alguns poucos cliques no computador, extraía as informações solicitadas. O exército de funcionários que recebia os clientes – com palavras amáveis e gentis – sumiu. O banco agora dispunha de vários caixas, que nem sempre usavam palavras (nem amáveis nem gentis), apenas algum gesto ou expressão facial, às vezes um franzir de sobrancelhas. E a rapidez aumentou.

Tempos depois surgiram os primeiros caixas eletrônicos, que rapidamente (como a vida moderna exige, todos têm pressa) se espalharam pelas avenidas, ruas, shoppings, agências 24 horas etc. etc. e aqueles caixas que se limitavam a franzir as sobrancelhas também evaporaram. Quem sabe onde andam?

Então penso que a modernização tecnológica trouxe muitos benefícios – a rapidez e precisão, por exemplo – ; no entanto, alterou profundamente a linguagem no relacionamento cotidiano entre as pessoas.

Os idosos, por exemplo, não têm pressa. O tempo para eles escorre devagar e é precioso. Apesar da invenção das filas preferenciais, eles, a maioria, não acompanhou a espantosa rapidez da modernização tecnológica. Por isso sentem necessidade do contato humano, da voz do funcionário gentil e de suas palavras amáveis.

Tenho presenciado com frequência a cena: fila do caixa eletrônico do banco (qualquer banco), uma senhorinha (cabeça branca e pequenina) tenta introduzir o cartão magnético naquele monstro luminoso. O monstro não aceita o cartão, ela tenta novamente, o monstro pede que ela coloque sua digital no local indicado. Ela, assustada, retira o cartão. O monstro diz que não foi possível concluir a transação. Estou atrás dela na fila, nenhum funcionário para socorrê-la. Ela entra em desespero, eu também. Devo ajudar? O cartaz avisa: “NÃO aceite ajuda de terceiros, chame um funcionário”. Não há funcionários (é preciso acabar com a orgia de funcionários nos bancos públicos), e a fila cresce, e a senhorinha ameaça chorar. Então penso que não sou um “terceiro”, sou a segunda da fila, que já está quase na rua (os demais caixas eletrônicos estão quebrados). Ajudo a vovó, que sorri agradecida. As pessoas que criaram esses monstros luminosos deveriam pensar que um dia (se tudo correr bem) também vão envelhecer e talvez não haja funcionários por perto. Nem terceiros.

_________________________________________________Sobre a autora

Roseli Deienno Braff é professora aposentada e doutora em Estudos Literários/Unesp. Atualmente, presta serviços editoriais de forma autônoma.




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