Exposição “Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello” (1904-1991)

por Ana Nemi

3–5 minutos
Ilustração de Laudelina de Campos Mello, com fundo colorido e padrões geométricos.
Capa da HQ de Francisco Lima Neto que conta a trajetória de Laudelina.¹

No último dia 16 de maio, o Instituto Moreira Sales de São Paulo inaugurou a exposição Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello (1904-1991), com curadoria de Renata Sampaio e Raquel Barreto.² Ancorada na pesquisa acadêmica de Elisabete Aparecida Pinto, que entrevistou Laudelina, a exposição se divide em oito estações nas quais as suas muitas faces vão sendo apresentadas: a sindicalista que chegou a fazer parte do Partido Comunista Brasileiro nos anos de 1930, a militante do movimento negro que organizou o Baile Pérola Negra em Campinas, a fundadora de associações de trabalhadores domésticos, a mulher negra cujo nome foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria em 2023, entre muitas outras.

Caminhando pelas estações, vamos conhecendo a trajetória de Laudelina, ao passo que se estabelece um bonito e profícuo diálogo com artistas, letrados e militantes cujas lutas se entrecruzaram ou articularam com as de Laudelina. O debate entre Abdias do Nascimento e Raquel de Queiroz, por exemplo, sobre o Baile das Debutantes Negras, criado e conduzido por Laudelina no final dos anos de 1950, traz argumentos com os quais lidamos ainda nos dias de hoje: seriam as associações de negros espaços fechados ou lugares de construção de processos emancipatórios? A exposição reproduz as páginas dos debates na revista O Cruzeiro, e, também as notícias sobre o Baile, onde também se encontram fotografias do Baile e é possível ouvir as canções tocadas à época.

“Se existe preconceito de cor na sua cidade, o nosso dever não será aceitá-lo e prestigiá-lo, mas combatê-lo. Lembre-se, meu caro Presidente, que hoje, além do simples dispositivo constitucional, temos uma lei específica a nosso favor, a “Lei Afonso Arinos”. (…) O que não devemos, o que não podemos admitir, é que se trace uma linha de côr no Brasil (…). Aí, é êsse um dos aspectos mais lamentáveis da discriminação racial: contamina aqueles próprios a quem segrega.”

Resposta de Raquel de Queiroz ao Presidente da Associação Cultural Pérola Negra, depois de ser convidada a ir ao Baile das Debutantes Negras. (Mantida grafia original)

“Raquel argumenta com teorias e não com fatos. Que vale a lei Afonso Arinos. Apesar da lei, uma negra num baile de branco é relegada. Só se consegue adquirir direitos, com luta. Nada é dado de mão beijada. Esse baile é resultado de uma situação, e não causa de uma situação. É preciso assumir a condição do negro para compreender isso. (…) O negro precisa ter orgulho de ser negro. Precisa realizar-se esse baile, para as jovens negras.”

Entrevista de Abdias do Nascimento, na mesma revista O Cruzeiro em que Raquel de Queiroz publicou o seu artigo. (Mantida grafia original)

Obras de artistas como Heitor dos Prazeres, Arthur Bispo do Rosário e Mulambo, entre outros, compõem as estações que discutem temas como os modos de representar trabalhos domésticos e os caminhos de libertação que eles expressam. Destaco a belíssima fotografia de Clementina de Jesus, a cantora que popularizou o samba com seus timbres afrodescendentes, em uma cadeira descansado e tomando sol. Uma foto feita por Walter Firmo em 1977 e que, poeticamente conversa com a de Pixinguinha, feita pelo mesmo Walter Firmo³ fotógrafo que se notabilizou por representar os negros em suas múltiplas maneiras de viver e resistir. Nessas fotos, esses grandes negros como Laudelina descansam, mas como as fotografias de Laudelina que a exposição nos apresenta, delas ecoam sons, lugares, expressões, que articulam futuros presentes e possíveis a passados também presentes.

(Maestro Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna Filho), Rio de Janeiro, RJ, 1967 : Walter Firmo: Acervo IMS/Reprodução)
Maestro Pixinguinha (Alfredo da R. V. Filho), Rio de Janeiro, RJ, 1967 : Walter Firmo: Acervo IMS.
Imagem invertida horizontalmente. Clementina de Jesus em sua casa no Grajaú (RJ), 1977. Fotografia de Walter Firmo, 42x60cm. Acervo Instituto Moreira Salles/Coleção Walter Firmo.
Imagem espelhada. Clementina de Jesus, Rio de Janeiro, 1977. Fotografia de Walter Firmo: Acervo IMS.

___________________________________________________Informações

Exposição: Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello
Período: 16/05/2026 a 22/11/2026
Curadoria: Raquel Barreto, Renata Sampaio e Phelipe Rezende (Assistência de curadoria)
Local: Instituto Moreira Salles – Avenida Paulista, 2424, São Paulo/SP – Brasil
Horário: Terça a domingo e feriados das 10h às 20h (fechado às segundas). Última admissão: 30 minutos antes do encerramento.
Ingresso: Entrada gratuita.
Saiba mais: https://ims.com.br/exposicao/dignidade-e-luta-laudelina-de-campos-mello/

_______________________________________________Sobre a autora

Ana Nemi é historiadora, professora e membro da equipe editorial da Revista Inditos. Atualmente ensina História Contemporânea, História Ibérica e História da Saúde Pública na Universidade Federal de São Paulo.


____________________________________________________Notas

1) A exposição está resumida no site do Instituo Moreira Salles disponibilizado nas informações.

2) Neto, Francisco Lima. Laudelina de Campos Mello. São Paulo: Editora Mostarda, 2021, 54p. O livro está disponível no site da editora Mostarda.

3) Para saber mais sobre as fotografias de Walter Firmo, acesse o site do Instituto Moreira Salles: https://ims.com.br/titular-colecao/walter-firmo/




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