Memórias da Guerra Civil Espanhola
por Ana Nemi
“Esto no se va a acabar nunca […] Por cada uno que matáis, se van para arriba siete, y cuando matéis a esos siete, yá habrá en el monte catorce… […]
(Almudena Grandes. El lector de Julio Verne, pp. 64, 65 e 319)
Esto es una guerra y no se va a acabar nunca. […]
¡En España ya no hay héroes comunistas, teniente, a ver si se entera de una puta vez! Ni siquiera existen los comunistas, no existen los socialistas ni los anarquistas, no queda ni un solo republicano, hemos acabado con ellos, com todos los rojos, héroes o cobardes […]”
Talvez valha começar com uma frase já bastante repetida do poeta Waly Salomão: “A memória é uma ilha de edição”. E talvez também valha completar: seus silêncios raramente se tornam apagamentos, eles retornam nos sussurros das ruas, em pequenas memórias desenhadas ou escritas, nos objetos, nas roupas, nos modos de trabalhar e viver. Foi assim com as memórias da Guerra Civil Espanhola, talvez o acontecimento sobre o qual mais se leu e escreveu em boa parte do século XX. Ao menos assim o afirmam muitos historiadores, como meu professor José Carlos Sebe Bom Meihy, que me apresentou essa história ainda na graduação nos anos de 1980.
Entre 1936 e 1939 os republicanos espanhóis enfrentaram um levante de parte das Forças Armadas contra a ordem instituída pelas eleições livres de fevereiro de 1936. A Frente Popular, coalizão vencedora, era formada por republicanos de esquerda e socialistas e liderada por Manuel Azaña (1880-1940), e recebeu os votos de comunistas e anarquistas.
Na guerra entrecortaram-se e enfrentaram-se diversos projetos para as espanhas. Na Frente Popular é possível destacar: a autonomia ou a independência das regiões históricas, como a Catalunha e o País Basco; avanços dos anarquistas nas áreas rurais da Andaluzia e nas áreas urbanas do norte e em Madri; comunistas, inicialmente minoritários, mas que aumentariam suas vozes com a chegada do apoio soviético; socialistas dispostos a reformas republicanas e aqueles que aguardavam a derrota do governo reformista republicanos para organizar o processo revolucionário e a tomada do poder; republicanos reformistas, entre o quais se destaca o presidente Manuel Azaña, com intenções de aprofundar uma reforma agrária e promover a instrução pública para todos os espanhóis.
Entre os sublevados cabe citar grupos claramente fascistas como a Falange; grupos de centro-direita que pretendiam manter parte das instituições republicanas em funcionamento, como a CEDA (Confederação Espanhola de Direitas Autônomas); setores bastante radicalizados das Forças Armadas concentrados no Marrocos, onde a Espanha travava uma guerra inglória pela manutenção da colonização desde o século XIX; os Requetés, uma milícia carlista e fortemente católica, imprimindo à Guerra um tom cruzadista que viria a justificar a violência dos sublevados contra os republicanos, mesmo após o fim da Guerra. Setores das Forças Armadas promoveram um golpe de Estado contra o governo republicano eleito em julho de 1936, quando a violência política já se espalhava pelas espanhas, com a tomada de terras e fábricas por socialistas e anarquistas e ataques contra os republicanos pelos falangistas nas ruas.
Para muitos historiadores, dois foram os motivos principais para a derrota dos republicanos. Em primeiro lugar, o divisionismo entre as forças legalistas da República, que não conseguiram criar uma trajetória comum de ações durante a guerra, ao contrário dos sublevados que rapidamente se uniram em torno da figura do general Francisco Franco. Em segundo lugar, a inoperância das democracias ocidentais, nomeadamente Inglaterra e França, que, especialmente após o Pacto de Munique (1938), ignoraram o conflito e os apelos dos republicanos, enquanto os sublevados foram fartamente providos de tropas e recursos vindos de italianos fascistas e alemães nazistas.
Se os governos das democracias ocidentais ignoraram cinicamente o conflito, republicanos de esquerda de muitos países voluntariaram-se junto às tropas legalistas nas Brigadas Internacionais, que reuniam norte-americanos, alemães, franceses e muitos outros, e entre as quais lutaram os nossos Caio Prado Jr. e Apolônio de Carvalho. Mas a derrota dos republicanos se tornaria clara em 1938, após a sangrenta Batalha do rio Ebro. Em abril de 1939, após a queda da Catalunha e de Valência, as tropas franquistas invadiram Madri, colocando fim à Guerra. A Espanha mergulharia em uma ditadura que só terminaria em 1975, com a morte do ditador Francisco Franco (1892-1975). Mas o que terminara em abril de 1939 era Guerra formal, não a Guerra cotidiana que os sublevados, agora governantes, infligiriam contra os republicanos sobreviventes que não puderam escapar das espanhas por mar ou terra. Era preciso “limpar a Espanha dos vermelhos”, e vermelhos eram todos os republicanos e seus apoiadores, independentemente de sua filiação política. Protegido pelo desenvolvimento da Guerra Fria e seus cinismos, na qual inimigos dos soviéticos se tornavam aliados independente dos seus posicionamentos políticos, Francisco Franco conseguiu se manter no poder. Os sonhos dos republicanos que lutaram junto às forças aliadas na Segunda Guerra Mundial na esperança de que o governo de Franco também fosse deposto, tornaram-se, assim, fábula.

As estimativas demonstram que algo em torno de 400 mil espanhóis passaram pela fronteira com a França, o que fez com que fossem encerrados em campos de concentração, e por isso muitos retornaram. Milhares tentaram sair pelo porto do Levante, mas poucos de fato conseguiram embarcar. Era preciso ficar, resistir, apoiar quem ainda resistia, como os maquis, que subiram às montanhas para organizar a guerrilha, ou desaparecer de alguma forma. Nesse contexto, muitas histórias foram escritas, muitos personagens foram inventados ou efetivamente vividos, muitas vidas perdidas, e muitas outras salvas. E dentro das espanhas, estimam-se 30 mil desaparecidos e 150 mil mortos por motivos políticos, isso sem considerar os milhares de encarcerados forçados ao trabalho em obras públicas, e todos, claro, sujeitos a torturas.
Todas essas histórias, no entanto, foram silenciadas pelo processo de transição democrática construído politicamente entre 1975 e 1978, ano em que foi promulgada a atual Constituição da Espanha. E a palavra é exatamente essa: acordou-se o silêncio, conforme se afirmou à época, para evitar novos conflitos. Dessa forma, a memória da Guerra e do pós-Guerra com suas violências, as divisões nas famílias e nos povoados, fizeram com que muitos espanhóis aceitassem o silêncio, mas será que isso é mesmo possível? Quem leu Clarice Lispector sabe que os fatos são pedras duras, mas entre eles existem sussurros, e foi em torno desses sussurros que muitos espanhóis encontraram caminhos para registrar as memórias de parentes, vizinhos, lugares, acontecimentos etc. E isso mesmo antes da Lei de Memória Histórica que, em 2007, reconheceu o direito à memória e, na prática, revogou o silêncio acordado na década de 1970. O boom de novelas gráficas, ou HQs, a gosto do leitor, nas espanhas das últimas décadas, é bastante revelador desse processo, cabendo destacar Paco Roca e Antonio Altarriba, que movimentam memórias de sobreviventes e de seus parentes para compor seus enredos. Mas quero falar de novelas, novelas grandes e cheias de aventura, sofrimento e paixões, quero falar da madrilenha Almudena Grandes (1960-2021).
Ela escreve frases e parágrafos longos, quase intermináveis. Os personagens e seus lugares de viver aparecem aos poucos, entremeados por muitas tramas cujos caminhos se modificam com aqueles sustos e inesperados que tiram fôlego. Almudena acompanha a tradição do espanhol Benito Pérez Galdós (1843-1920), que pretendeu revelar aos espanhóis a história do seu século XIX em 46 novelas históricas intituladas Episodios Nacionales. Em seu projeto, intitulado Episodios de una guerra interminable, a autora escreveu cinco novelas: El lector de Julio Verne, Las tres bodas de Manolita, Inés y la alegría, Los pacientes del doctor García e La madre de Frankenstein. Para construir suas histórias, Almudena Grandes recolhe testemunhos, conversa com parentes de mortos e desaparecidos e viaja pelas espanhas. Dessa forma, personagens fictícios aparecem entremeados a personagens reais, acontecimentos fictícios permitem entrever histórias reais que, ao final de cada livro, a autora explica aos leitores, mostrando a partir de quais relatos construiu seus personagens e a trama. Se muitas vezes se diz do maniqueísmo de seus personagens, ou da pouca complexidade na construção deles, o que é possível corroborar, por outro lado, para aqueles como eu, que já vão com uns 40 anos de leituras sobre a guerra interminável, pode ser a construção de um desenho, ou de imagens, por meio da literatura. Desenhos de distâncias entre os republicanos que subiram aos montes para resistir e aqueles que ficaram en el llano, e que com eles criavam dutos de acolhimento e de fugas. Escolhi o último que li, que era também o que me faltava ler, para escrever sobre: El lector de Julio Verne.
O leitor de Julio Verne, que é também o narrador, chama-se Antonino, e é filho de um Guarda civil, a poderosa polícia fortalecida na época franquista e a quem cabia perseguir os apoiadores sobreviventes da República derrotada em abril de 1939. Morador do povoado de Valdepeñas de Jaén, na Andaluzia, Antonino narra suas desventuras entre 1947 e 1949, exatamente os últimos anos da luta inglória dos maquis. No quartel onde vivia com a família, o menino narrador ouviu gritos de torturas, amparou a irmã menor que se assustava e aprendeu a odiar a Guarda Civil e a admirar a resistência dos maquis. Passeando entre os montes, onde viviam as rúbias, uma família de mulheres que sobrevivia à margem do povoado por serem esposa e filhas de comunistas, e el llano, onde a Guarda Civil aterrorizava a população em busca de informações sobre os maquis, Antonino conta como aprendeu taquigrafia e datilografia ao mesmo tempo em que lia os muitos livros de Júlio Verne e Pérez Galdós que dona Helena guardava. Um retrato por escrito daquela Espanha empobrecida pela Guerra e marcada pela violência da guerra interminável.
A ficcionalização da experiência, no mais das vezes resultado da guarda e/ou recolha de memórias, e que creio ser possível considerar como um evento literário e histórico muito presente na época chamada de contemporânea, complexificou o entendimento da nossa relação com a memória. E me refiro às pessoas em geral e aos historiadores em particular. Aos leitores de Almudena Grandes as histórias reveladas podem trazer alento, alguma certeza de que as trajetórias dos mortos e desaparecidos não serão esquecidas, mesmo sabendo que na novela não se encontra o que aconteceu como fato duro, mas como sussurro de vidas que existiram e sofreram violências. Aos historiadores caberá tratar a novela como documento histórico? Ou talvez a partir dos sussurros procurar as fontes, os instrumentos de prova que também ajudem a revelar essas histórias? Perguntas para as quais o debate historiográfico não encontra consenso, o que indica a pertinência e as muitas possibilidades do diálogo entre história e literatura.
Mas vou arriscar respostas rápidas, e, portanto, incompletas. A novela em si terá sua história escrita a partir da experiência de Almudena Grandes em sua vida de madrilenha, mas as histórias que ela narra apontam para contextos, povos, pessoas e distintas temporalidades, a partir da articulação das memórias recolhidas com os fatos e personagens ficcionais. E essa sua maior riqueza: apontar, indicar, sugerir, fazer sentir o não vivido. Não se trata de um texto literário da envergadura de Javier Marías, e nem mesmo de Maria Dueñas, mas é sem dúvida um evento literário importante para a reconstrução das memórias da Guerra Civil Espanhola e da guerra interminável que travaram os franquistas e falangistas contra os republicanos sobreviventes nas espanhas dos anos de 1940 aos inícios de 1970.
Em 2026, o início da guerra interminável completa 90 anos, por isso vou ocupar esse novo espaço eletrônico para contar algumas histórias dela nos próximos meses.
_________________________________________________Sobre a autora
Ana Nemi é historiadora, professora e membro da equipe editorial da Revista Inditos. Atualmente ensina História Contemporânea, História Ibérica e História da Saúde Pública na Universidade Federal de São Paulo.
____________________________________________Sugestões de Leitura
GRANDES, A. Episodios de una guerra interminable. Madri: Maxi-Tusquets, 2023. (Caixa com 5 volumes).
NEMI, A. História Ibérica. São Paulo: Contexto, 2024.
PRESTON, P. El holocausto español: Odio y exterminio en la Guerra Civil y Después. Madri: Editora Debate, 2011.
O Labirinto do Fauno. Dirigido por Guillermo del Toro. Produzido por Guillermo del Toro, Alfonso Cuarón, Bertha Navarro, Álvaro Agustín, Frida Torresblanco e Elena Manrique. Madrid: Warner Bros, 2006. [Há muitos e excelentes filmes sobre a Guerra Civil Espanhola, mas gostaria de indicá-lo. Trata-se de uma fábula na qual maquis sobreviventes enfrentam as Forças Armadas vitoriosas e se entrelaçam à pequena Ofélia, que sonha retornar a um mundo mágico cumprindo as tarefas que lhe são dadas pelo Fauno.]

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