Depois das testemunhas – 40 anos de Maus, de Art Spiegelman
por Victor Callari
Em 1986, a editora Pantheon Books publicava Maus I: My Father Bleeds History, o primeiro volume completo da obra-prima de Art Spiegelman, que circulava de forma serializada nas páginas da revista RAW desde 1980. A efeméride nos convida a revisitar um livro que transformou a história dos quadrinhos e abriu espaço para que esse objeto cultural fosse socialmente reconhecido por seus valores literários e artísticos, contribuindo para o arrefecimento de preconceitos historicamente construídos. Tudo isso é verdade. Mas talvez, em 2026, nenhuma dessas razões seja a mais importante para voltarmos a ele.

Quarenta anos depois, Maus parece ter adquirido um novo significado. Não porque suas páginas tenham mudado, ou porque tenhamos descoberto algo que seus primeiros leitores ignoravam – ainda que quarenta anos de pesquisas acadêmicas tenham ampliado seu horizonte de compreensão. O que mudou foi o tempo em que o lemos. Entre 1986 e 2026, não transcorreu apenas uma geração. Alterou-se a própria relação que as sociedades ocidentais mantêm com seus passados, sobretudo com os grandes traumas do século XX. Maus deixou de ser uma HQ publicada na companhia das testemunhas para tornar-se uma obra lida, cada vez mais, na ausência delas.
Essa mudança, com toda certeza, é menos evidente do que a conquista do Pulitzer, em 1992, ou do papel canônico que a obra assegurou na história das histórias em quadrinhos, mas é certamente mais profunda. Durante boa parte do século XX, a memória do Holocausto apoiou-se na coragem e na presença daqueles que podiam dizer “eu estive lá”. Sobreviventes visitaram escolas, concederam entrevistas, escreveram memórias, participaram de documentários e ofereceram seus testemunhos a pesquisadores e instituições de guarda e preservação. A experiência vivida constituiu o alicerce da transmissão. Hoje, entretanto, essa geração desaparece diante dos nossos olhos. Pela primeira vez desde 1945, começamos a habitar um mundo em que o Holocausto já não pertence à memória vivida, mas à história e às formas culturais que a tornam inteligível.
Foi Pierre Nora quem percebeu, ainda na década de 1980, que as sociedades contemporâneas, atropeladas pela aceleração do tempo histórico, produzem lugares de memória justamente quando deixam de contar com os meios vivos da memória. Os Arquivos, museus, monumentos e comemorações tornam-se necessários quando a continuidade espontânea entre as gerações se rompe. Enquanto a lembrança circula naturalmente no interior das famílias ou das comunidades, ela pouco necessita de suportes materiais, “fala-se tanto em memória porque ela não existe mais”.
Talvez possamos dizer que Maus atravessou, ao longo dessas quatro décadas, exatamente essa transformação. Em sua origem, tratava-se de uma obra construída em diálogo direto com a memória comunicativa dos sobreviventes. Vladek Spiegelman não era apenas o personagem de uma história contada por seu filho; ela era seu interlocutor. Sua voz organizava a narrativa, interrompia o filho, corrigia lembranças, confundia datas, desviava o assunto. O livro conservava a tessitura de uma conversa, com seus ritmos, cadências, suas hesitações e seus impasses. Hoje, contudo, Maus ocupa outro lugar. Maus tornou-se, sem jamais ter pretendido sê-lo, um lugar de memória.
Essa mudança de estatuto ajuda-nos a compreender por que Maus permanece tão poderoso e atual. Sua força extrapola seu enredo e se corporifica na maneira como Spiegelman problematiza o próprio ato de lembrar. Ao contrário de tantas narrativas memorialísticas, Art não constrói uma ilusão de acesso transparente e direto ao passado. O leitor é constantemente convidado a lembrar que está diante de uma reconstrução. As entrevistas são interrompidas por discussões familiares, lapsos de memória e silêncios. A narrativa não avança como uma linha contínua, mas como um mosaico de fragmentos cuja unidade depende do paciente trabalho de quem recorda e de quem escuta.
É justamente aí que a reflexão de Paul Ricoeur ilumina a leitura de Maus. Em A memória, a história, o esquecimento, Ricoeur insiste que a memória jamais nos entrega o passado em estado bruto. Entre a experiência e sua permanência interpõe-se sempre uma narrativa. Lembrar não significa recuperar intacto aquilo que ocorreu, mas reconhecer, interpretar e reorganizar os vestígios. A fidelidade da memória não reside na reprodução literal dos acontecimentos, e sim no esforço permanente de conferir sentido ao que sobreviveu ao tempo.
Maus parece compreender intuitivamente essa condição. Não oferece um testemunho puro, mas uma reflexão sobre as mediações que tornam o testemunho possível. O verdadeiro protagonista da obra talvez não seja Vladek Spiegelman, mas o próprio processo de transmissão da memória. Art entrevista o pai, questiona suas versões, confronta suas lacunas e expõe as dificuldades éticas de transformar o sofrimento familiar em narrativa pública. O leitor acompanha, simultaneamente, a história do Holocausto e a história da construção dessa história.
Em uma das passagens mais reveladoras e impactantes de toda a obra, Art descobre que seu pai destruiu os diários escritos por sua mãe depois da guerra, e o chama de assassino. A cena adquire uma intensidade que ultrapassa o drama familiar, pois o que está em jogo não é apenas o desaparecimento de um documento; mas o da memória. O que sua mãe escreveu jamais poderá ser recuperado e sua história não poderá ser escrita. Resta apenas o vazio produzido por sua ausência. Spiegelman compreende, naquele instante, que toda memória é feita também daquilo que não chegou até nós.

Esse episódio revela uma das dimensões mais sofisticadas de Maus, ao reconhecer que a memória é também uma experiência da perda. Ela convive com silêncios, lacunas, destruições e esquecimentos. Aquilo que conhecemos da história nunca corresponde à totalidade da experiência vivida, mas ao conjunto de vestígios que conseguiram sobreviver.
Essa percepção ganha realce ao considerarmos o que Aleida Assmann chamou de passagem da memória comunicativa para a memória cultural, isto é, a passagem de uma memória que depende da convivência entre gerações para outra que se apoia em objetos culturais capazes de prolongar a existência do passado para além da vida daqueles que o experimentaram. Livros, filmes, monumentos, arquivos e histórias em quadrinhos (por que não?) deixam então de ilustrar a memória para tornar-se alguns de seus principais suportes.
É precisamente essa transformação que torna Maus um livro diferente daquele publicado em 1986. O texto permanece inalterado; seus leitores, não. Se nos anos seguintes à sua publicação a discussão girava em torno da possibilidade de representação do Holocausto, das possibilidades e limites de veiculação do testemunho a partir da linguagem dos quadrinhos, das experiências vivenciadas por Vladek, passamos a encontrar uma reflexão sobre as formas pelas quais uma sociedade preserva experiências que já não podem ser transmitidas em primeira pessoa.
Há quarenta anos, Maus ensinava que era possível contar o Holocausto por meio dos quadrinhos. Hoje, ensina algo ainda mais importante: nenhuma memória atravessa o tempo sem encontrar novas formas de ser narrada
Talvez seja esse, afinal, o maior legado de Maus. Quarenta anos depois de sua publicação, ele continua nos lembrando que o desaparecimento das testemunhas não representa o fim da memória, mas o início de uma nova responsabilidade histórica. Quando já não é possível perguntar “como foi?”, resta outra pergunta, talvez ainda mais difícil: o que faremos, nós, com as histórias que elas nos deixaram?
__________________________________________________Sobre o autor
Victor Callari é Professor de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
____________________________________________Sugestões de Leitura
SPIEGELMAN, Art. Maus: a história de um sobrevivente. Tradução: Antônio de Macedo Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
SPIEGELMAN, Art. MetaMaus. Tradução: Érico Assis. São Paulo: Quadrinhos na CIA (Companhia das Letras), 2022.
CALLARI, Victor. Um problema de taxonomia? Graphic Novels como literatura de testemunho: O caso de Art Spielgeman. Intellèctus, Rio de Janeiro, v. 18, n. 1, p. 209–226, 2019. Disponível em https://www.e-publicacoes.uerj.br/intellectus/article/view/40681.

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