As Ciências e suas histórias. Afinal, o que isso significa?

por Isabella Bonaventura

4–6 minutos

Atualmente, variados cursos de graduação e de pós-graduação possuem disciplinas em História das Ciências, ou mesmo, especializaram-se nessa área de ensino e pesquisa. No Brasil, um marco institucional relevante foi a fundação da Sociedade Brasileira de História das Ciências (SBHC) em 1983. No mesmo ano, foi lançado o primeiro número do Boletim da SBHC (Imagem 1). O último evento da associação, realizado em julho deste ano na cidade de Goiânia, contou com mais de 500 inscrições, demonstrando que a relevância de se estudar as ciências a partir de uma perspectiva histórica é amplamente reconhecida pela comunidade acadêmica brasileira.

Capa do boletim da Sociedade Brasileira de História da Ciência, edição de novembro de 1985.

Observando esta dinâmica é possível perguntar: como as ciências se tornaram objeto da história? E quais as implicações desse tipo de estudo?

O convite à reflexão permite que pensemos como a História das Ciências se organizou institucionalmente, a partir de instituições e periódicos fundados no Norte Global. Em 1913, o belga radicado nos Estados Unidos George Sarton (1884 – 1956), fundou o periódico Isis (Imagem 2). A revista reunia conhecimentos em ciências humanas e ciências naturais, visando a formação de um “novo humanismo”, capaz de transformar cientistas em cidadãos e, assim, evitar o surgimento de figuras que Sarton caracterizava como “técnicos bárbaros” ou “humanistas bem intencionados, mas incapazes de pensar a ciência”.

Capa da revista 'ISIS', dedicada à história da ciência, editada por George Sarton, D. Sc., volume I.

Em sua origem institucional, a História das Ciências posicionava-se como área interdisciplinar, na qual tanto a perspectiva das ciências humanas, quanto os apontamentos das ciências naturais encontrariam espaço. Neste primeiro momento, o nome da disciplina é pensado no singular e eram consideradas válidas somente as contribuições elaboradas a partir de laboratórios, instituições e universidades europeias e dos Estados Unidos. 

A ciência pensada no singular era compreendida como produtora incontestável de verdades universais. Tais visões sobre a produção de conhecimento, em geral, e sobre a ciência, em particular, evidenciavam a seguinte contradição: embora o conteúdo do saber pudesse se espalhar pelo mundo afora, a produção do conhecimento válido estava restrita a lugares específicos, dispondo inclusive de uma data, ou período, de nascimento: a Revolução Científica (séculos XVI e XVII). 

O contexto pós-Segunda Guerra demonstrou as limitações dos planos humanistas de Sarton. Nesse momento, movimentos de transformação contestam antigas relações de subalternidade e dominação colonial, a Europa deixava de ser o centro de tudo. Era necessário falar com a multidão, encarar a diversidade de perspectivas sobre a sociedade e a natureza. 

Colocam-se novas propostas, interessadas em compreender as ciências no plural. A produção de conhecimento passa a ser abordada como atividade permeada por dinâmicas materiais, contextuais e geograficamente situadas. O surgimento destas perspectivas impacta os espaços institucionais vinculados à história das ciências após os anos 1970, ganhando especial vigor nas décadas seguintes. Mudar significava pluralizar os sujeitos capazes de produzir este saber, contestar certezas e colocar a História das Ciências diante de uma nova proposta. Além de conferir uma formação humanista e vinculada ao bem comum, ela também se torna capaz de perturbar certezas, contestar sistemas de poder e costurar mundos possíveis.

Um olhar para o passado pode ajudar a exemplificar como determinados objetos “incontestavelmente” conhecidos como científicos já possuíram outros significados e usos. O microscópio, cujas as lentes comumente são associadas ao caminho para verdades objetivas, teve sua relevância contestada no início do século XIX, sendo necessário “aprender a ver” por meio dessas lentes.

Se não há certezas prévias, no que devemos confiar? Essa questão sempre se apresenta quando o edifício, supostamente sólido, da ciência ocidental é discutido ou questionado. Para pensar com Krenak e Viveiros de Castro, quando a substância universal se retira de cena, o que nos “resta” são as relações. Destaca-se a palavra restar, pois para nossa visão cotidiana, colocar tamanha expectativa na relação nos parece algo, no mínimo, temerário. 

Mas, afinal, o que são experimentos bioquímicos senão relações? O que é a formação da(o) cientista senão uma relação? O que é uma lista de referências bibliográficas senão uma relação? O que é um blog ou revista eletrônica senão uma relação?

Os estudos biomédicos, os aceleradores de partículas, as vacinas e as políticas públicas são reais porque são relacionais. São efetivos porque não foram impostos por uma entidade soberana, à espreita em nenhum lugar. As ciências são essencialmente coletivas. Contestar as certezas da “Ciência”, observá-la em sua pluralidade, com as lentes da história, pode assustar algumas pessoas, mas talvez manter verdades incontestáveis, que nos governam desde outro plano, seja ainda mais assustador.

_________________________________________________Sobre a autora

Isabella Bonaventura é pesquisadora de pós-doutorado na Unifesp e professora credenciada no Programa de Pós-Graduação em História na mesma instituição. Doutora em História pela USP, com Tese premiada pela Sociedade Brasileira de História das Ciências (SBHC – 2026). Permaneceu seis meses na Universidade de Buenos Aires como Bolsista CAPES-PDSE. Também é autora do livro ”Profissão Farmacêutica em São Paulo: prática científica, ensino e gênero (1895 – 1917)” (Editora Fiocruz, 2020). Apaixonada por História e Literatura. Adora ler e aprender/ensinar.

____________________________________________Sugestões de Leitura

GAVROGLU, Kostas. O passado das Ciências como História. Porto Editora, 2007. 

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo, Companhia das Letras, 2020.

RIEZNIK, Marina; LOIS, Carla. “Micrografías interrogadas. Una aproximación a la cuestión de las imágenes técnicas en la historia de las ciencias en la Argentina (siglos XIX y XX)”. Caiena, 2018. Disponível em: https://www.academia.edu/download/57031726/Caiana_12L_Rieznik_y_Lois.pdf 

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. “O chocalho do xamã é um acelerador de partículas”. Revista Sexta-feira, número 4, 1999.




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